Pedagogia Espírita – 2 – A Proposta Educacional Espírita

François Laplatine e Marion Aubrée dirão que a educação está no centro do espiritismo (apud Incontri e Grzybowski, 2005, p. 10); e sobre esta questão educacional que o Espiritismo abarca, Humberto Mariotti nos dá as seguintes explicações:

(…) A Educação Espírita torna o homem consciente quanto à sua natureza espiritual e transcendente, outorgando à inteligência uma série de direitos filosóficos no que diz respeito ao seu próprio Ser e existir. Pois, ao atingir consciência do que ele representa na Terra, como o indivíduo que raciocina sobre si mesmo, outorga-lhe não apenas o chamado exercício dos direitos humanos, mas também o direito existencial de ser um espírito imortal e em Evolução, dentro de um grande plano do universo. (Mariotti e Ramos, 1984)

Acreditamos que a elaboração e difusão de uma visão de mundo e de ser humano, como ocorre naturalmente com o Espiritismo, descamba necessariamente na elaboração de uma teoria educacional. Ou seja, a Educação Espírita é consequência natural e necessária da Filosofia Espírita. Daí a existência espontânea e racional de uma Filosofia Espírita da Educação.

Herculano Pires nos afirma:

É evidente que as dimensões da educação decorrem das dimensões do homem. Se o homem pode ser encarado, tanto espiritual como socialmente, numa perspectiva de sucessões dimensionais, então o processo educativo também será susceptível dessa visualização. E é precisamente numa teoria dimensional do homem que vamos buscar as possibilidades de uma formulação teórica da educação nesse sentido. Formulação aliás, que pode levar-nos a maiores possibilidades metodológicas na colocação filosófica do processo educacional. (2004, p. 39)

E Dora Incontri complementa:

Das raízes histórico-filosóficas desde Sócrates a Kardec, das experiências práticas e das indicações teóricas desenvolvidas no Brasil e, como resultante do paradigma do espírito, (…) emerge uma Pedagogia Espírita. (…) [Seus princípios] brotam da maiêutica de Sócrates, da mensagem do Cristo, das contribuições de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, solidificam-se com Kardec e florescem finalmente no Brasil com Eurípedes e Anália, Ney Lobo e Herculano. (2001, p. 281)

O educador imbuído das reflexões filosóficas espíritas deverá ir muito além, pois compreenderá esta existência atual como um recorte temporal e espacial da vida maior, e pretenderá uma educação para a autonomia, a autenticidade e a cidadania conscientes, de modo que o educando possa desenvolver suas potencialidades e compreender seu papel no mundo e sua capacidade de ser mais, que possa valorizar mais o “ser” do que o “ter” e conduzir a própria vida com ética e sabedoria, enfim, que possa ter plena consciência de si e do mundo. Isso se dará porque a Doutrina Espírita

se ocupa de toda a realidade em todas as suas dimensões. Da intimidade do átomo penetra em ascensão, todos os reinos naturais, inclusive o dos Espíritos, culminando em Deus. É até mais abrangente do que qualquer outra filosofia, pois inclui em suas reflexões o plano dos Espíritos, objetivamente, como reais, e não como entes abstratos, de razão ou míticos. Admite a filosofia espírita, as íntimas relações dos Espíritos conosco, os encarnados, e suas manifestações no plano físico, com reflexões especulativas sobre isso tudo, sem prejuízo das experiências científicas correspondentes. (Lobo, 2002, v.1 p. 43-44)

Vê-se a abrangência da Filosofia Espírita, explicitada por Ney Lobo, e como toda filosofia gera uma ética, com esta não é diferente. A moral e a ética espíritas não são outras senão a moral e a ética de Jesus. Este, o norte em que se deve mirar a educação espírita. Entretanto, a vaidade intelectual, a soberba, o tolo orgulho faz muitos desdenharem da figura de Jesus, relegada muitas vezes a simples condição de mito ou arquétipo. Independentemente se estamos falando de uma figura histórica ou religiosa, sua moral e sua ética são inatacáveis, e a Filosofia Espírita inova no sentido de dar aos preceitos morais anteriores [cristãos] a explicação racional deles, tanto no por que quanto no para que, a causa e a finalidade (Lobo, 2002 , v. 1, p. 51).

Como toda ética concretiza-se através do ato educativo, fica evidente, portanto, o forte vínculo da Filosofia Espírita com a Educação: a Pedagogia Espírita – que para concretizar-se por sua vez, passa pelo viés da Filosofia Espírita da Educação.

Uma vez definido o conceito de educando (um ser espiritual, biológico e social), os fundamentos da Filosofia Espírita da Educação podem ser delineados da seguinte forma, de acordo com Dora Incontri (2001 e 2003), Ney Lobo (2002 e 2003) e Herculano Pires (2004):

  1. O ser humano é um interexistente, sua vida se desdobra além das dimensões físicas compreensíveis pelos cinco sentidos orgânicos;
  2. A vida é de origem divina e possui finalidade específica: a perfectibilidade de todos os seres por meio de diversas existências corporais e extra-corporais, em diferentes contextos sócio-culturais;
  3. A criança (ou o educando) é um espírito único e milenar que recomeça sua jornada interexistencial do ponto de vista corpóreo, cujas faculdades intelectuais e morais encontram-se temporariamente adormecidas num corpo em maturação;
  4. O Mundo é uma morada temporária, uma escola do tipo internato, que evolui com seus alunos e mestres e na qual a vivência é o principal método educativo;
  5. A educação se caracteriza por um processo gradual e permanente de aperfeiçoamento do espírito imortal, rumo à perfeição;
  6. O educador se torna ora gestor, ora mediador da auto-educação do educando, tendo ele passado pelo mesmo processo (ou estar passando, uma vez que o processo é contínuo);

Os princípios de tal filosofia são os seguintes: o amor como base das relações; a liberdade de pensar e de agir, tendo o respeito, a responsabilidade, a moral e a ética como bússolas e limites; a igualdade com singularidade, que implica na compreensão de que todos são iguais em essência (seres interexistentes fadados à perfeição, livres e necessitados de amor), mas são também únicos, com suas próprias vivências e experiências ao longo de sua história interexistencial, trazendo potencialidades, virtudes e carências das mais diversas; a naturalidade como categoria filosófica, ou seja, existe uma natureza propriamente humana: o ser humano é um ser biológico, social e espiritual que evolui rumo à felicidade plena, mas possui ciclos e graduações neste processo evolutivo; a ação construtiva, o agir no mundo, a aprendizagem pela vivência; a educação integral, ou seja, educação intelectual, ética, moral, religiosa, afetiva, sexual, estética e física; sempre à medida das potencialidades de cada um.

Como tais princípios poderiam se concretizar numa escola espírita?

1 – Introdução; 2 – A Proposta Educacional Espírita; 3 – A Escola Espírita

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