Não compare farinha com banana

Salman Khan: o matemático, cientista da computação e engenheiro eletricista que encantou Bill Gates com seu modo peculiar de dar aulas, projetando-se para além da esfera virtual… Na primeira semana de fevereiro, foi capa da revista Veja (edição 2254), numa reportagem bastante interessante do ponto de vista informativo, mas superficial no que diz respeito a questões pedagógicas.

O método desenvolvido por Khan é, sem sombra de dúvidas, extraordinário e eficiente, mas não é do seu método que gostaríamos de falar, mas de um equívoco conceitual cometido pela autora da matéria, que não apenas confundiu construtivismo (uma epistemologia) com metodologia pedagógica, mas comparou situações incomparáveis.

Utilizaremos apenas duas citações (e já aconselhamos a leitura da matéria, que é realmente interessante) para ilustrar o erro:

“Segundo esse raciocínio [o de que nenhum aprendizado superaria o da própria vivência], o astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, teria de ter voltado da viagem ao satélite natural da Terra transformado no maior especialista de todos os tempos nas ciências aeroespaciais. É um remato absurdo. O alemão Wernher Von Braun (1912-1977), o pai do programa espacial americano, não perdia a chance de rebater os elogios a seus feitos com a informação de que o homem chegou à Lua com base nos cálculos de Johannes Kepler, o descobridor da órbita elíptica dos planetas, que viveu quase 400 anos antes de todos os envolvidos no projeto lunar americano, um tempo em que só os pássaros voavam.”

A outra citação é uma legenda da imagem de Armstrong, vestido como astronauta, e de Von Braun, segurando uma maquete de módulo lunar:

“Experiência é tudo? Se fosse, Armstrong teria voltado da Lua sabendo mais que Von Braun, pai do programa espacial americano, que usou os cálculos de Kepler (1571-1630) para guiar a nave”

Descuidadamente, a autora comparou farinha com banana!

1º – Von Braun, o grande Von Braun, jamais poderia descrever a emoção de saltar na Lua, de sentir o efeito da gravidade seis vezes menor do que a nossa; jamais poderia descrever com precisão a imagem da Terra vista da Lua, a sensação de pisar num pó fino e cinza, de chutá-lo com o bico da bota sem que o vento desviasse a rota parabólica das partículas. Von Braun só podia imaginar essas coisas! Assim, o aprendizado de Armstrong é insubstituível e tem maior significância do que qualquer descrição enfadonha em uma aula puramente teórica. A poesia pode nos tocar a alma, mas nenhuma poderia descrever o que o astronauta americano sentiu ao descer as escadas do módulo lunar e pisar o chão que os poetas tanto almejaram.

2º – Von Braun, o grande Von Braun (temos que repetir!), tornou possível a viagem à Lua porque estudou arduamente para isso (além de ter uma das mentes mais geniais conhecidas), fez cálculos complicadíssimos (não sem uma equipe) numa época em que os computadores eram salas gigantes e quentes, cheias de fios e válvulas queimando a todo o momento. Isso, Armstrong provavelmente não fez.

Seria mesmo possível comparar a experiência de comer uma banana com o estudo teórico de como fazer farinha? Pode-se mesmo comparar o conhecimento prático de como é a superfície lunar com o conhecimento de como fazer um foguete chegar lá?

Bom, a grande questão não está exatamente na comparação feita pela autora, mas no desprezo intencional dado ao conhecimento empírico.

Dizemos, no entanto, que a vivência é tão importante quanto a teorização.

Aristóteles (o grande Aristóteles!) escreveu sobre quase tudo, incluindo sobre o movimento dos corpos. Ele dividia esses movimentos em basicamente dois tipos: os naturais e os violentos. A pedra que cai faz um movimento natural, assim como a fumaça quente que sobe, mas uma pedra que alguém atira para o alto faz um movimento chamado violento. Entretanto Aristóteles dizia que os dois movimentos não podiam acontecer ao mesmo tempo. Parece lógico: uma pedra não pode cair e subir ao mesmo tempo! Certo? Logo uma flecha atirada obliquamente deveria manter o seu movimento violento até que acabasse a força, e então ela despencaria num movimento natural.

Flecha Aristotélica

Flecha Aristotélica

Mesmo que todo mundo visse uma flecha ou uma bala de canhão perfazendo um movimento parabólico, esse era o conhecimento teórico aceito (e imposto) até o início século XVII (é sério!), quando Galileu, apoiado por Kepler, e o apoiando, propôs que Aristóteles havia usado apenas uma cadeia de raciocínios lógicos bem estruturados, mas sem ter feito nenhuma experimentação. Se uma premissa fosse considerada falsa, todo o edifício aristotélico poderia ruir. E ruiu!

O que Galileu fez, foram exaustivos experimentos, que mais tarde Newton pôde teorizar e criar a sua própria matemática para explicá-los. Os gigantes, aos quais Newton se reportou e sobre os ombros dos quais ele subiu para ver mais longe, fizeram observações cuidadosas e muitos experimentos.

O próprio Kepler só pôde realizar seu trabalho porque teve à sua disposição o melhor laboratório astronômico da Europa, pertencente ao astrônomo Tycho Brahe. Aliás, voltando umas décadas no tempo, quando Copérnico propôs a teoria heliocêntrica, muitos físicos, astrônomos e matemáticos acharam os seus cálculos muito interessantes, muito mais simples que os de Ptolomeu, era genial. Mas a teoria, diziam, era inverossímil.

Há uma relação dialética entre teoria e prática, uma síntese entre viver e imaginar. Dar prioridade a um desses aspectos é como tentar resolver o problema do ovo e da galinha.

A autora da matéria sobre Salman Khan, na revista Veja, demonstra que pesquisou bastante sobre o assunto, mas também viajou até a Califórnia, nos Estados Unidos, para fazer a entrevista. Ela não poderia ter descrito tão bem sobre o ambiente de trabalho de Khan se não tivesse estado lá, visto com os próprios olhos, sentido o cheiro dos livros sobre a mesa, ouvido ao vivo a voz do professor. A própria revista, em sua carta ao leitor diz o seguinte:

“Mesmo em tempos de comunicação instantânea de cobertura planetária, nada substitui a reportagem de campo precedida de pesquisa cuidadosa e ampla do tema em pauta”

Vivência e teorização são indissociáveis. A lição que fica é que é preciso estudar e viver um pouco mais a educação, antes de escrever tão enfaticamente sobre ela.

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2 Respostas para “Não compare farinha com banana

  1. Nossa cara, comecei lendo achando que não ia entender. Mas não é que tudo se encaixou na minha cabeça ao final da leitura? Ótimo texto, fica como aprendizado pra quem leu não é mesmo? Interessante crítica a autora da Veja. Notável mesmo que assuntos relacionados não significa de modo algum, assuntos identicos. O que foi experienciado é diferente pra cada um dos dois, já que a atuação de ambos fora diferente na viagem do homem á Lua.

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