Permacultura e Sustentabilidade

Em tempos de Rio+20, lembrei-me de um texto que escrevi no segundo semestre de 2007, como Projeto de Aprendizagem para um aluno em uma escola particular de Uberlândia. Retirei os trechos específicos daquele contexto e aí estão algumas palavras para a nossa reflexão…

Permacultura e Sustentabilidade

Algumas crianças chegam a acreditar que os alimentos vêm das prateleiras dos supermercados; que a água vem da torneira e a energia elétrica, da tomada; que as roupas vêm das lojas e a gasolina, do posto. De fato, poucas pessoas (adultas mesmo!) se dão conta de todo o processo produtivo que vai da plantação do algodão ao ato de se olhar no espelho experimentando uma camiseta nova. A vida, para elas, é algo trivial.

Entretanto, a despeito do desconhecimento de muitos, tudo tem uma história própria, tudo se relaciona de alguma forma, e só é possível perceber essas relações partindo de uma visão sistêmica da vida. Cabe ao processo educativo e mais particularmente à escola, o desenvolvimento ou o despertar dessa visão sistêmica.

É que o ato de educar para a cidadania somente existe de fato quando se educa pela cidadania. E embora esse não seja o tema central desse projeto, essa é uma questão profundamente ética que envolve valores humanos dos quais a escola não pode se furtar.

Numa concepção essencial, a ética se imiscui com valores morais e princípios orientadores da conduta humana, levando inevitavelmente a um profundo respeito pela vida. E entendemos vida não apenas do ponto de vista humano, mas levando em consideração toda e qualquer forma de vida, desde uma bactéria ou uma planta ao maior dos mamíferos ou ao mais inteligente dos gênios. A ética, portanto, não faz distinção de formas de vida para sua aplicabilidade.

Desse modo, ser ético é o primeiro passo para a cidadania.

Levantamos nessas poucas linhas dois conceitos que deverão nortear todo esse texto, quais sejam: ética e vida. A conduta ética perante a vida (em toda a sua magnitude) deve ainda se pautar num terceiro conceito, dentro do contexto que intentamos visualizar: ecologia. De forma simples e direta, a ecologia estuda as relações entre os seres vivos e seu meio ambiente, relações essas que não têm sido respeitadas por vultosa parcela dos habitantes desse planeta nos últimos séculos.

Desde a ascensão do atual modelo econômico capitalista e do modelo produtivo industrial, os recursos naturais têm sido explorados como se fossem ilimitados. Os cientistas sociais, pautados no paradigma mecanicista da vida, numa visão completamente reducionista e fragmentada, forjaram um modelo econômico de acordo com o qual o “crescimento” (seja ele econômico ou tecnológico) é a meta a ser alcançada, algo tido como essencial à manutenção da qualidade de vida humana. Se algo é bom, pensam, quanto mais desse algo houver, melhor. Entretanto, a expansão ilimitada é obviamente impossível num ambiente finito, o que torna todo o sistema insustentável.

De um modo geral, os economistas não reconhecem que a economia é meramente um dos aspectos de todo um contexto ecológico e social: um sistema vivo composto de seres humanos em contínua interação e com seus recursos naturais, a maioria dos quais, por seu turno, constituída de organismos vivos. (Capra, 1982, p. 180).

O problema do crescimento ilimitado envolve diretamente questões políticas que se ligam à agricultura, à distribuição de renda, à produção de energia, aos nossos valores e aos nossos padrões de vida. As indústrias gastam boa parte de seu capital em publicidade, com o claro intuito de manter um padrão de vida baseado no consumo de seus produtos, muitas vezes supérfluos e outras vezes até mesmo perniciosos, o que de fato degrada a qualidade de vida humana e geral. O consumismo torna-se, então, um hábito cultural que deteriora o ar que respiramos, o alimento que comemos, o meio ambiente onde vivemos e as relações sociais que constituem a tessitura de nossas vidas (Capra, 1982, p. 206). A conseqüência natural dessa cultura do crescimento é a exaustão dos recursos naturais.

Necessário se faz, portanto, a efetivação de uma visão ecológica ativa e, para isso, podemos analisar dois pontos capitais para a manutenção da vida humana na atualidade: a produção de energia e a produção de alimentos. Há energia e alimento suficiente para 7 bilhões de almas encarnadas?

A produção de energia

Existem diversas fontes de energia e tecnologias compatíveis com sua produção, mas as fontes mais comuns em nosso país são a petroquímica e a hidrelétrica.

Muitos são os que não se dão conta do que há por trás do simples ato de acender uma lâmpada. Acredita-se apenas que se está pagando por um serviço cujo produto é o único fator em jogo. Paga-se a energia, ela passa a ser de usufruto do consumidor e pronto. No entanto, por trás desse ato tão simples e cotidiano, há toda uma indústria centralizada que trabalha em função de oscilações do mercado.

No Brasil, a maior parte da energia elétrica é produzida por usinas hidrelétricas. A construção de uma usina dessa categoria exige o desvio do curso de um rio e o alagamento de uma vasta área para a construção de uma represa. Um processo que pode necessitar do desalojamento de uma população local inteira e do desmatamento da área, o que causa, inevitavelmente, variações no microclima da região e distúrbios no ecossistema local. Além disso, o peso da água represada provoca a compressão do solo logo abaixo e pode ainda provocar pequenos movimentos em placas tectônicas (no Brasil, que está praticamente no centro de uma dessas placas, o efeito parece ser desconsiderável).

A geração da energia elétrica nessas usinas consiste na liberação de parte da água represada que, atraída pela força gravitacional, atravessa as turbinas em alta velocidade, fazendo girar as pás dos rotores dos geradores propriamente ditos.

Outra forma de geração tradicional da energia elétrica emprega combustíveis fósseis. O refinamento do petróleo, além de produzir combustíveis para automóveis, aviões e geradores de energia a óleo diesel, também produz combustível para as termoelétricas. Essas podem se utilizar também de outros tipos de combustíveis fósseis, como o gás natural e o carvão mineral. Em todo caso, o processo de geração de energia consiste na queima do combustível em imensas caldeiras, nas quais a água é fervida e o vapor, movendo-se rapidamente por uma tubulação própria, movimenta os rotores dos geradores, similarmente às usinas hidrelétricas.

Está claro que a queima desses combustíveis lança na atmosfera vários gases tóxicos e partículas poluentes, alguns contribuintes para o efeito estufa, outros para a diminuição da radiação solar que chega a terra (o caso da fuligem). Não podemos deixar de perceber ainda que o carbono agora jogado na atmosfera estava por milhões de anos isolado do meio-ambiente, o que nos leva à óbvia conclusão de que o planeta dificilmente o absorverá em pouco tempo, fazendo-o retornar ao ciclo natural. Além disso, os combustíveis fósseis não são recursos renováveis. Mas quanto mais se quer crescer, mais energia é necessária…

Uma das soluções encontradas para se escapar da possibilidade de escassez dos combustíveis fósseis (e sua conseqüente poluição atmosférica) e do impacto ambiental causado pelas hidrelétricas é a energia nuclear. Entretanto, embora o impacto inicial causado pela construção de uma usina nuclear seja bem menor que no caso das hidrelétricas, as conseqüências para o meio ambiente devido ao lixo gerado nessas usinas podem ser desastrosas. Um reator nuclear funciona como uma bomba atômica controlada, ele aquece a água de uma caldeira exatamente como uma termoelétrica, mas os resíduos consistem em lixo radioativo, que deve ser mantido isolado do meio ambiente por milhares de anos.

O físico e ambientalista austríaco, Fritjof Capra, salienta com muita propriedade que ao procurarmos soluções tecnológicas para todos os problemas, limitamo-nos usualmente a transferi-los de um ponto para outro no ecossistema global, e, com muita freqüência, os efeitos colaterais da “solução” são mais perniciosos do que o problema original (1982, p. 210).

Existem outras formas alternativas, seguras, limpas e altamente sustentáveis de produção de energia elétrica, tais como a energia solar (embora nem tão sustentável se considerarmos o lixo tóxico das baterias, mas que pode ser aprimorada), a eólica (dos ventos) e a maremotriz (das ondas do mar). A questão é que essas formas de obtenção de energia podem (e devem) ser descentralizadas, o que choca de frente com os interesses político-econômicos da minoria detentora do poder financeiro.

O hábito de evitar as questões sociais na teoria econômica está intimamente relacionado com a impressionante incapacidade dos economistas de adotarem uma perspectiva ecológica. O debate entre ecologistas e economistas já se desenrola há duas décadas [Capra fala do final da década de 1970. Atualmente, poderíamos acrescentar pelo menos 25 anos a essas duas décadas mencionadas], e vem mostrando claramente que o pensamento econômico contemporâneo é substancial e inerentemente antiecológico. Os economistas desprezam a interdependência social e ecológica e tratam todos os bens igualmente, sem considerar as inúmeras formas como esses bens se relacionam com o resto do mundo – quer sejam fabricados pelo homem ou naturais, renováveis ou não, e assim por diante. Dez dólares de carvão são iguais a dez dólares de pão, de transporte, sapatos ou educação. O único critério para determinar o valor relativo desses bens e serviços é o seu valor no mercado monetário: todos os valores são reduzidos ao critério único de produção de lucro privado. (Capra, 1982, p. 216).

Um dos maiores problemas da produção de energia, como se vê, é a centralização, que poderia ser resolvido com a adoção da energia solar, abundante, de graça, renovável, limpa, descentralizada etc. Alternativas, de fato não faltam, mas vontade política…

Esses são pontos vitais de nosso padrão de vida que poucas pessoas de fato prestam atenção. Mas se a escola pode alargar a visão de sua comunidade educacional, então é seu o papel de promover o debate.

Esse mesmo problema de centralização ocorre com a produção de alimentos.

A produção de alimentos

O modelo agrícola de muitos países, entre eles o Brasil, se baseia em extensas áreas de monoculturas (os latifúndios), o intensivo emprego de capital e o uso exagerado de máquinas colheitadeiras, de arado, de irrigação etc. que exigem, é claro, energia para funcionarem. Além disso, esse processo antinatural de cultivo necessita do uso de pesticidas, agrotóxicos e fertilizantes químicos (muitos de origem petroquímica). São métodos que destroem o equilíbrio orgânico, poluem o solo, lençóis freáticos e leitos de rio, além de envenenarem nossos alimentos.

Em seguida, os produtos de boa aparência são destinados à exportação, enquanto o restante vai para a indústria, onde são processados, embalados, transportados e distribuídos aos supermercados, sempre sob uma chuva de publicidade e propaganda. Os alimentos mais saudáveis (mas às vezes nem tanto) da feira livre, normalmente vêm da agricultura familiar, que não tem como concorrer em pé de igualdade com o agronegócio.

Na pecuária, o problema é o mesmo, senão pior. Nas últimas décadas, a produção de carne (bovina, aviária, suína etc.) aumentou percentualmente muito mais do que a população mundial (mas a fome no mundo não parece ter diminuído), configurando, hoje, num dos maiores problemas ambientais do planeta. Boa parte dos grãos produzidos pelos grandes agricultores, por exemplo, se destina à alimentação animal. Grande parte de água potável é utilizada na hidratação e (quando há) asseio animal.

A necessidade quase esquizofrênica de crescimento empurrou as fronteiras agropecuárias para regiões florestais, e o resultado não pôde ser outro: desmatamento e queimadas. O crescimento desordenado da agropecuária no Brasil foi uma das principais causas do desmatamento da Mata Atlântica, da Caatinga, do Cerrado e mesmo da Floresta Amazônica. Além disso, as queimadas respondem pela emissão de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera a cada ano.

A pecuária, seguindo o padrão de produção em massa das indústrias, acaba lançando mão do uso tecnológico nocivo, como a aplicação de hormônios nos animais, seja para a engorda ou “manutenção da saúde”; o encarceramento de aves para a produção de ovos; os métodos de abate etc. Os hormônios e outros medicamentos injetados nos animais, ou consumidos por eles, não são totalmente excretados pelo organismo do animal, mas parte dele vai parar no garfo do consumidor final, e o que é eliminado no meio ambiente, se infiltra nos aqüíferos subterrâneos e lençóis freáticos. Aliás, o animal não excreta apenas essas substâncias, mas todo o resto tóxico de seu metabolismo. E para onde vão esses excrementos? Vão para pequenos açudes sem tratamento, para rios, para o mar e outras fontes de recursos hídricos, causando graves e nocivos efeitos à biodiversidade. Não podemos nos esquecer ainda que os gases resultantes da digestão de grandes animais, como o gado, são contribuintes para o efeito estufa e a desintegração do ozônio atmosférico.

A produção de proteína animal é várias vezes mais dispendiosa que a produção de proteína vegetal. Mas talvez seja mais lucrativa (ou ainda é lucrativa porque os custos ambientais não se enquadram no custo de produção). Segundo relatório da Unesco para o Fórum Mundial da Água em 2004, a produção de um quilo de carne necessita de 15 mil litros de água; por outro lado, um quilo de cereal necessita de 1,3 mil litros de água. Não há dúvidas que nossos recursos de água doce correm risco de escassez.

Outro resultado da massiva propaganda pelo consumo exagerado de carne, é a deficiência da saúde das pessoas, acostumadas ao fast food, e desacostumadas a uma dieta balanceada, o que onera inevitavelmente o Estado. Veja que o problema central não é exatamente a ingestão da carne, mas a nossa cultura alimentícia que substitui todos os outros alimentos por ela, gerando uma demanda desnecessária por sua produção, e problemas de saúde perfeitamente evitáveis.

Estamos falando de abalos de ecossistemas, nos quais nos incluímos. Estamos falando de ameaças sérias à nossa saúde, ao nosso bem-estar e aos processos biológicos que mantém o equilíbrio natural do meio ambiente. Ao nos depararmos com a realidade dos riscos para a nossa existência, podemos questionar: como repor tudo o que retiramos dos recursos naturais dos quais dependemos? Como evitar as conseqüências funestas do crescimento econômico desenfreado? Uma opção é o incentivo político e econômico à agricultura familiar, e uma espécie de retorno da cidade ao campo, mas tal medida é totalmente conflitante com nossos atuais conceitos de eficiência, produtividade e lucro. Esses conceitos

são usados num contexto tão limitado que se tornaram inteiramente arbitrários. A eficiência de uma companhia é medida em termos de lucros, mas, como esses lucros estão sendo obtidos cada vez mais à custa do povo, temos que perguntar; “Eficientes para quem?” Quando os economistas falam em eficiência, referem-se à eficiência em nível individual, da companhia, social ou em nível do ecossistema? (Capra, 1982, p. 220).

Ao contrário do que muitos pensam, a agricultura latifundiária ou a pecuária em grande escala não geram emprego. Não no nível que se necessita. Por outro lado, a agricultura familiar gera muito mais atividade rentável. Aliás, a agricultura familiar é responsável pela maior parte do abastecimento interno nacional. O agronegócio se presta muito mais à exportação. Enquanto pessoas passam fome nas ruas, um dos produtos mais exportados do Brasil é a soja, riquíssima em proteínas que nos são necessárias, mas ela não se destinará à alimentação humana, e sim, animal!

E então, com a expansão do agronegócio, haverá terra suficiente para a agricultura e a pecuária industrial? Já salientava Fritjof Capra que no âmago do problema, como de costume, estão a miopia ecológica e a ganância empresarial (1982, p. 230).

Quando falamos em sustentabilidade, portanto, precisamos nos ater à reação em cadeia resultante dos impactos ambientais de nosso padrão de vida. Aliás, quando falamos em sustentabilidade, falamos de padrões de ciclo e padrões de rede, pontos esquecidos pelo marketing empresarial, pelos aproveitadores em campanhas políticas, pelos que se adornam com palavras da moda sem compreender-lhes o sentido basilar. Bem, e agora? Há alternativas para o tão sonhado e inexplorado desenvolvimento sustentável?

Sim, há alternativas, e uma delas é a Permacultura.

Solução permacultural

Mais um: quando falamos em sustentabilidade, estamos falando de ações que respeitam o equilíbrio dos ecossistemas (que já são, por si só, sistemas naturais auto-sustentáveis), a diversidade cultural e a justiça social. Neste quesito, a Permacultura pode dar uma grande contribuição.

O termo quer dizer cultura permanente e foi criado pelos australianos Bill Molinson e David Holmgren na década de 1970, como uma alternativa aos padrões insustentáveis de exploração dos recursos naturais, uma resposta ao sistema industrial agrícola convencional, poluidor das águas, dos solos e do ar (Morrow, s/a, p. 9).

A Permacultura se baseia no conhecimento de várias tradições culturais no trato com a terra (principalmente), respeitando sempre os ciclos naturais e a interação entre os seres vivos, mas também incorporando novas tecnologias, mormente no que diz respeito à geração de energia.

Trata-se de um método completamente sistêmico e suas aplicações se estendem desde o simples tratamento da água até a construção de ecovilas. A bioarquitetura, o design estético e harmônico, os padrões de interconexão, são características da Permacultura. Nas palavras do próprio Bill Molinson, é uma filosofia e uma abordagem de uso da terra que inclui estudos dos microclimas, plantas anuais e perenes, animais, solos, manejo da água e as necessidades humanas em uma teia organizada de comunidades produtivas (Morrow, s/a, p. 9).

A ética da Permacultura irá se basear, dessa forma: 1) no cuidado com a terra, 2) no cuidado com as pessoas, 3) na distribuição dos excedentes e 4) na redução do consumo. Fica claro por esses quatro itens que a Permacultura em nada se aproxima do atual modelo econômico.

Os princípios permaculturais são os seguintes: 1) preservar a diversidade genética, 2) respeitar o direito à vida de todas as espécies e 3) utilizar espécies e habitats de forma sustentável. Manter o fluxo natural das coisas é também uma atitude obrigatória. Para se ter uma idéia sobre esse quesito, vejamos o que nos diz Rosemary Morrow:

Todas as formas de vida necessitam de energia para desempenhar suas atividades. A fonte primária de energia é a luz do sol. As plantas capturam a energia da luz e a transformam em energia química: carboidratos, açúcares, proteínas, ceras e óleos, que por sua vez são consumidas pelos animais. Desde os herbívoros, que comem sementes, folhas ou frutos, até a bactéria no interior de uma minhoca, a energia se movimenta através do sistema e é dissipada em forma de calor. Pela produção de plantas, seja em um design de horta ou de floresta, você realiza um fluxo de energia. A energia flui desde as plantas através de todos os organismos no seu sistema. Se você levar toda a grama cortada e as folhas secas para o lixo, está jogando fora a energia do sistema. No entanto, se fizer um composto de todos os detritos do jardim você manterá o fluxo natural. (s/a, p. 15)

Diz Fritjof Capra (1982, p. 224) que executar um trabalho que precisa sempre ser refeito nos ajuda a reconhecer os ciclos naturais de crescimento e declínio, de nascimento e morte, adquirindo cada vez mais consciência da ordem dinâmica do universo. Cuidar de uma horta, de um jardim ou de um pomar, limpar a casa ou fazer a higiene diária do corpo são atividades que nos ajudam a compreender melhor a dinâmica da vida.

Capra propõe ainda alguns pontos importantes para uma alimentação saudável e veremos que a Permacultura, tranquilamente, abrange esses pontos. Diz o físico que:

Para ser saudável e nutritiva nossa dieta alimentar deve ser bem balanceada, pobre em proteína animal e rica em carboidratos naturais, não-refinados. Isso pode ser conseguido se nos apoiarmos em três alimentos básicos: cereais integrais, legumes e frutas. Ainda mais importantes que a composição detalhada da nossa dieta são os três requisitos seguintes: nossos alimentos devem ser naturais, consistindo em alimentos orgânicos em seu estado natural e inalterado; devem ser integrais, completos e não refinados ou enriquecidos. Devem ser isentos de venenos, isto é, cultivados organicamente, sem resíduos químicos venenosos ou aditivos tóxicos. Esses requisitos dietéticos são extremamente simples e, no entanto, é quase impossível atender a eles no mundo de hoje. (Capra, 1982, p. 224)

Os permacultures têm a consciência de que o solo se assemelha a um organismo, pois é um sistema vivo e precisa estar em equilíbrio dinâmico para ser saudável. A perturbação desse equilíbrio ocasiona pragas, ervas daninhas e empobrecimento orgânico do solo: é a doença. Isso é muito comum de ocorrer em monoculturas. Já a policultura, da qual a Permacultura se serve, garante o bom funcionamento orgânico da terra.

A indústria conseguiu fazer com que os agricultores acreditassem que sem pesticidas, adubos químicos, irrigação artificial e outras parafernálias substitutas dos meios naturais de homeostasia, a agricultura não seria produtiva. Persuadiram ainda os agricultores de que seria muito mais lucrativo a produção de campos imensos de uma única cultura. Ledo engano! São práticas como essas as que mais perturbam o fluxo natural da energia, afetando invariavelmente o alimento produzido.

Com a Permacultura, os alimentos podem ser produzidos em regime de policultura, manutenção do ecossistema natural e dos grandes ciclos ecológicos, gerando saúde para quem os come. São alimentos naturais, integrais e isentos de venenos. Não são necessários pesticidas ou fertilizantes químicos.

Que a Permacultura traz uma contribuição expressiva para os problemas emergentes no mundo, isso é fato. Porém, há muito mais do que se aprender com a Permacultura do que se pode depreender da síntese expressa nos parágrafos acima, inclusive no que diz respeito à geração e consumo de energia. E já adianto que a consciência permacultural, embora possa ser desenvolvida com estudos e vivências, começa com o levantar de manhã cedo e arrumar a própria cama.

Bibliografia

ALVES, Rubem. A Escola Com Que Sempre Sonhei Sem Imaginar Que Pudesse Existir. 5ª ed., Campinas-SP: Papirus, 2003.

CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação, a ciência, a sociedade e a cultura emergente. Tradução de Newton Roberval Eichemberg, São Paulo: Cultrix, 1982.

LEGAN, Lucia. A Escola Sustentável: eco-alfabetizando pelo ambiente. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Pirinópolis-GO: IPEC, 2004.

MORROW, Rosemary. Permacultura Passo a Passo. Tradução de André Luis Jaeger Soares, Pirinópolis-GO: IPEC, s/a.

A CARNE É FRACA. Instituto Nina Rosa, 2005. 1 DVD (54 min), son., color.

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